
Me espanta muito a comoção que a mídia causa nas pessoas em relação a acontecimentos tão distantes. Na verdade, me espanta mesmo a falta de comoção por aquilo que não é estampado nos jornais. Um médico já me falou sobre as enfermeiras que, ao trabalharem na seção de pediatria, eram verdadeiros cubos de gelo quando encontravam em sua vida diária crianças que apanhavam dos pais. Mas se derretiam ao verem na TV casos como o da estudante Lucélia, torturada pela mãe adotiva.
Porque falar disso? Fico vendo a comoção quanto ao massacre na Faixa de Gaza. Tiros para todos os lados, desrespeitando pessoas desarmadas. Mulheres, crianças e velhos sendo expulsos de suas casas com brutalidade. Casas sendo destruidas para darem espaço a escombros. Gente inocente condenada a viver no confinamento em condições sub-humanas. Me enoja que alguns goanienses chorem com estas cenas. Sim, porque há exatos cinco anos o mesmo aconteceu aqui, na saida para o Guapó. Foi o massacre do Parque Oeste Industrial. Quanto aos ilustres goianienses, ignorância, tal como a das enfermeiras. Ou mesmo apoio. Hipocrisia, o defeito capital do ser humano.
A ocupação ocorreu em um terreno irregular. Desde 1982 não se pagava o IPTU de uma área enorme. Mais de R$ 20 milhões em dívidas. O terreno era um enorme matagal usado para que ladrões se escondessem, ou criadouro de mosquitos da dengue. Mesmo sem cumprir a função social, obrigatória pela constituição, a enorme propriedade jazia ali, esquecida.
Foi quando começaram as ocupações. Na cidade mais desigual da América Latina, até demorou para que muitas pessoas vissem na área abandonada uma chance de construir a casa própria. Logo foi erguido o bairro Sonho Real. “Setor Sonho Real”, na citação de um de seus moradores. Pois “Setor” se chamam o bairros nobres da capital de Goiás, como Bueno e Marista. Para eles, era seu pedaço de nobreza, um teto.
O então governador do estado, Marconi Perillo, chegou a encorajar a ocupação. Ele garantiu que nada iria acontecer, que o terreno iria ser regularizado. Iris, em campanha para prefeitura da capital, também prometeu. Pedro Wilson, então prefeito, fez das suas promessas. O povo acreditou, e o “Setor Sonho Real” prosperou. Já eram mais de três mil famílias.
O problema foi o fim das eleições. O empresariado ligado à especulação imobiliária decidiu usar seu poderoso lobby. Logo veio a imprensa. Mentira em cima de mentira, teve até jornal que disse que os sem-tetos planejavam assassinar o governador do estado.
E quanto aos que prometerem regularizar o terreno? As eleições já tinham acabado. E veio a operação triunfo. Policias entrando armados para dentro da área onde velhas se ajoelhavam levantando uma bandeira branca improvisada. A bala comeu. No mínimo duas pessoas morreram. Relatos de vários desaparecidos. Felizmente, tudo foi filmado. Mas a mídia, óbvio, não se interessou.
Depois do “triunfo”, meses de isolamento em estádios de futebol. Sequer havia água para tomar banho e escovar os dentes. Apenas depois de muito sofrimento, alguns dos sem-tetos do Parque Oeste Industrial puderam ter uma casa. É o bairro Real Conquista.
Tal como o Holocausto, ou como o massacre de Gaza. Não podemos esquecer, não podemos perdoar. Mesmo que a justiça formal arquive de vez o caso, como parece que vai acontecer. O terreno? Voltou a ser o matagal e criadouro de mosquitos da dengue. O povo? Este mudou. Segue sua vida dura, mas a experiência de luta e organização foi irreversível. Os políticos? Continuam prometendo impunemente.
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