segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Quatro anos de Parque Oeste. Uma faixa de Gaza no cerrado






Me espanta muito a comoção que a mídia causa nas pessoas em relação a acontecimentos tão distantes. Na verdade, me espanta mesmo a falta de comoção por aquilo que não é estampado nos jornais. Um médico já me falou sobre as enfermeiras que, ao trabalharem na seção de pediatria, eram verdadeiros cubos de gelo quando encontravam em sua vida diária crianças que apanhavam dos pais. Mas se derretiam ao verem na TV casos como o da estudante Lucélia, torturada pela mãe adotiva.

Porque falar disso? Fico vendo a comoção quanto ao massacre na Faixa de Gaza. Tiros para todos os lados, desrespeitando pessoas desarmadas. Mulheres, crianças e velhos sendo expulsos de suas casas com brutalidade. Casas sendo destruidas para darem espaço a escombros. Gente inocente condenada a viver no confinamento em condições sub-humanas. Me enoja que alguns goanienses chorem com estas cenas. Sim, porque há exatos cinco anos o mesmo aconteceu aqui, na saida para o Guapó. Foi o massacre do Parque Oeste Industrial. Quanto aos ilustres goianienses, ignorância, tal como a das enfermeiras. Ou mesmo apoio. Hipocrisia, o defeito capital do ser humano.

A ocupação ocorreu em um terreno irregular. Desde 1982 não se pagava o IPTU de uma área enorme. Mais de R$ 20 milhões em dívidas. O terreno era um enorme matagal usado para que ladrões se escondessem, ou criadouro de mosquitos da dengue. Mesmo sem cumprir a função social, obrigatória pela constituição, a enorme propriedade jazia ali, esquecida.
Foi quando começaram as ocupações. Na cidade mais desigual da América Latina, até demorou para que muitas pessoas vissem na área abandonada uma chance de construir a casa própria. Logo foi erguido o bairro Sonho Real. “Setor Sonho Real”, na citação de um de seus moradores. Pois “Setor” se chamam o bairros nobres da capital de Goiás, como Bueno e Marista. Para eles, era seu pedaço de nobreza, um teto.

O então governador do estado, Marconi Perillo, chegou a encorajar a ocupação. Ele garantiu que nada iria acontecer, que o terreno iria ser regularizado. Iris, em campanha para prefeitura da capital, também prometeu. Pedro Wilson, então prefeito, fez das suas promessas. O povo acreditou, e o “Setor Sonho Real” prosperou. Já eram mais de três mil famílias.
O problema foi o fim das eleições. O empresariado ligado à especulação imobiliária decidiu usar seu poderoso lobby. Logo veio a imprensa. Mentira em cima de mentira, teve até jornal que disse que os sem-tetos planejavam assassinar o governador do estado.

E quanto aos que prometerem regularizar o terreno? As eleições já tinham acabado. E veio a operação triunfo. Policias entrando armados para dentro da área onde velhas se ajoelhavam levantando uma bandeira branca improvisada. A bala comeu. No mínimo duas pessoas morreram. Relatos de vários desaparecidos. Felizmente, tudo foi filmado. Mas a mídia, óbvio, não se interessou.

Depois do “triunfo”, meses de isolamento em estádios de futebol. Sequer havia água para tomar banho e escovar os dentes. Apenas depois de muito sofrimento, alguns dos sem-tetos do Parque Oeste Industrial puderam ter uma casa. É o bairro Real Conquista.

Tal como o Holocausto, ou como o massacre de Gaza. Não podemos esquecer, não podemos perdoar. Mesmo que a justiça formal arquive de vez o caso, como parece que vai acontecer. O terreno? Voltou a ser o matagal e criadouro de mosquitos da dengue. O povo? Este mudou. Segue sua vida dura, mas a experiência de luta e organização foi irreversível. Os políticos? Continuam prometendo impunemente.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

NASCE O TERRA LIVRE

Novo Movimento Popular, no Campo e na Cidade

O Movimento Terra Trabalho e Liberdade – Democrático e Independente (MTL-DI) vinha a alguns meses discutindo nossa atuação nos setores populares, sem-terra e urbanos, para a construção de um novo movimento. Em 29 e 30 de novembro de 2008 realizamos um seminário nacional, contando com representantes de 4 estados, quando analisamos o processo de fragmentação e a reorganização da classe trabalhadora e a nossa prática militante e organização interna, e decidimos por um novo nome para desfazer a confusão com a sigla MTL.
Votamos em dois nomes para a nossa nova organização e definimos pela realização de um plebiscito para encaminhar à base a decisão, assim como democratizar as discussões sobre a concepção do movimento. Por 73,3% dos votos, o nome aprovado foi TERRA LIVRE.
Seguiremos organizando os setores populares dos trabalhadores, no campo e na cidade, e dialogando com todas as organizações, partidos e movimentos que lutam por uma sociedade justa e igualitária. Continuamos a tentar fortalecer a nossa classe, reorganizando suas lutas e a unificando, por um mundo socialista.

Coordenação Nacional da TERRA LIVREBelo Horizonte, 18 de janeiro de 2009.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Operários fazem paralisação na Região de Goiânia


Os trabalhadores da fábrica Quero, na cidade goiana de Nerópolis, deram uma mostra de força ao fazerem uma paralisação de uma hora por turno no último sábado. Apesar da repressão por parte da empresa, o ato foi um sucesso. O objetivo foi pressionar o sindicato patronal a reconhecer a existência do Sindialimento, novo sindicato fundado em 2007, e negociar a data-base de 2008, que está vencida desde novembro.

Já faz muito tempo que os trabalhadores queriam um grito de basta aos desmandos da empresa. Como lembrou um companheiro na assembleia que ocorreu durante a paralisação, “não é só salário, mas a humilhação diária que sofremos” o motivo da revolta. As condições de trabalho na Quero são ruins: a jornada de trabalho é muito longa, não tem descanso nem aos domingos, e os chefes são autoritários.

Além disso, a Quero não quer reconhecer o sindicato que, segundo decisão da Justiça do Trabalho, tem o direito de representar os trabalhadores de toda a Região Metropolitana de Goiânia, a qual Nerópolis faz parte.

Durante a última assembleia dos trabalhadores, no dia 22 de janeiro, foi aprovado que o pessoal de cada turno atrasasse a entrada na fábrica em uma hora no dia 31. A empresa reagiu, colocando os chefes para fazer pressão psicológica, além de mentir descaradamente sobre a legitimidade do Sindialimento.

Também tentaram amedrontar os trabalhadores durante o ato. Tinha gente tirando foto dos manifestantes e seguranças retirando os apoiadores do sindicato da área de lazer, onde os operários se encontram antes do expediente. Mas não adiantou. Muitos responderam ao chamado do sindicato e pararam. Durante o segundo turno, mesmo com o pessoal do sindicato sendo expulso do pátio da empresa, a paralisação conseguiu adesão, o que deixou os chefes de queixo caido.

Não é apenas o pessoal da Quero que está em campanha salarial, mas toda a categoria das cidades próximas à Goiânia. Por isto, a convenção coletiva deve ser assinada pelo Sindicato das Indústrias de Alimentação de Goiás(SIAEG), que também não tem respeitado a legitimidade do sindicato. Eles chamaram o Sindialimento para apenas uma reunião, onde não apresentaram nenhuma contraproposta. O SIAEG tem como presidente o deputado federal Sandro Mabel(PR), que usa a imagem de empresário com “preocupação social”. Mas até agora ele não demonstrou isto na prática.

Após a saída da Quero, os manifestantes foram para a casa do presidente do Sindialimento. Lá foram discutidos os rumos da luta. Esta foi a primeira mobilização operária da história de Goiás, mas não será a última. O Sindialimento pretende chamar os trabalhadores das outras empresas para também fazerem sua mobilização. A batalha é longa, mas a vitória é certa se os trabalhadores continuarem com a mesma garra que demonstraram no sábado.